O problema da Italia e a Zona do Euro

O problema da Italia e a Zona do Euro

Pesquisei um pouco mais, desde o último artigo que escrevi sobre o bloco da Uniao Europeia e como os italianos vem criticando o bloco em si. Acusando a Alemanha de se beneficiar além culparem o Euro pelos seus problemas.

Aproveitando o gancho que o nosso amigo Investidor Sócio bem salientou da discrepância econômica que vemos na região Norte, essa bem mais desenvolvida que a região Sul da Italia. Vamos tentar entender um pouco mais a fundo os problemas da economia Italiana.

Achei um paper bem legal, consulte aqui. O artigo “The Productivity Puzzle and Misallocation: An Italian Perspective” feito na London School of Economics and Political Science.

O artigo fala sobre o desenvolvimento econômico e produtividade da Itália desde 1993 (pode baixar o artigo não está em italiano e sim em inglês) e aproveita que o artigo tá fresquinho, saiu agora em Dezembro de 2017.

No paper mostra que ao longo do tempo a produtividade da industria global como um todo – mesmo Estados Unidos e Alemanha – vem apresentando um fraco resultado, porém a Itália tem sido muito abaixo da média das nações industrializadas.

Uma performance fraca de produtividade é freqüentemente relacionada ao resultado incorreto de capital e/ou força de trabalho. O capital ou as pessoas estão sendo empregados em fins pouco eficientes.

Isso pode ser mais evidenciado especialmente em setores que estão contra a forte competição tecnológica internacional. Confirmando o que dissemos no outro post.

Resolvi aprofundar um pouco sobre o problema Italiano nesse post, porque boa parte das mazelas que eles enfrentam, também podem ser percebidos no mercado Brasil.

Vocês podem ver que muitas coisas descritas abaixo são também enfrentadas na nossa economias, particularmente acho que a nossa situação bem mais complicada, o caso a situação deles é bem mais simples de se resolver que a nossa.

O paper ainda indica alguns outros pontos de fraqueza que podemos encontrar na economia italiana:

    • Ineficiência. Grandes empresas são, por seu tamanho, mais capazes de conseguir entrar numa competição global. Você pode até encontrar um ambiente mais produtivo dentro de pequenas empresas, pois essas costumam ter proporcionalmente mais funcionários competentes que as grandes empresas. No entanto, são demasiado pequenas para competição global.
    • Possuem muitas empresas familiares. Isso não é nada de novo que empresas familiares tendem a ser menos produtivas: há estudos que mostram que empresas familiares são mais cuidadosas na gestão e arriscam muito pouco. Duas categorias de empresas que são conhecidas como pouco produtivas: as familiares e estatais (essas últimas nós brasileiros conhecemos bem). No entanto, as empresas que estão sob controle de instituições financeiras, ou outros proprietários estrangeiros, tendem a ser muito mais produtivas.
    • Os empréstimos bancários desempenham um papel fundamental nessa balança. É dado muito crédito às empresas pouco eficientes e pouco crédito para empresas eficientes. Isso tem várias razões. Uma das razões que já referenciamos anteriormente é o fato de que empresas de tecnologia precisam de poucos investimentos em material que poderia ser aceito como garantia pelos bancos. Eu particularmente já enfrentei diversos problemas aí mesmo no Brasil em relação a conseguir recursos. Isso ocorreu lá no inicio da minha empresa, o banco precisava de bens para comprovar a captação de recursos, como vou apresentar bens se a minha empresa não precisava de nada disso para funcionar, no máximo uma salinha e poucos funcionários, postei um Twitter que explica bem isso, inclusive siga-me no twitter todo dia posto coisa nova lá. Enfim, essa questão dos bancos é um assunto muito interessante que irei abordar talvez na série meu próprio negócio. Este é provavelmente um dos maiores problemas da Itália: empresa inovadora com poucos recursos financeiros.


  • O efeito do Euro, conforme dito no artigo anterior, não é inteiramente claro no paper apresentado. No entanto empresas com pouco eficiência se aproveitaram da queda de juros na sequencia da introdução do Euro.
  • Vemos uma relação de parceria entre empresas e bancos, beneficiando o capital para empresas com pouca eficiência. Isso é particularmente destacado na Itália onde há décadas vemos essas relações estreitas entre bancos e empresas. Isso geralmente é muito prejudicial para o desenvolvimento da produtividade, empresas fracas com contratos e relacionamentos mais próximos com os bancos, tendem a obter mais créditos que empresas fortes e produtivas mas que não tenham relacionamentos estreitos com os bancos.

A fraqueza sustentada pela baixa produtividade da economia Italiana tem pouco a ver com o Euro, ou o uso real da politica monetária e fiscal.

Como podemos ver que esses problemas não desaparecem, mesmo quando o BCE alterou sua politica montearia, mas sim tem raizes nas ações mais populistas do governo Italiano. Deem uma lida nesse outro artigo de um economista alemão Daniel Gros PhD em economia pela Universidade de Chicago.

Há sugestões, há muito tempo, sobre como resolver esses problemas italiano. Medidas que incluem regras mais flexíveis no mercado de trabalho, desburocratização na criação de empresas, mudanças nas regras sobre estrutura das empresas, facilitando a entrada de investidores estrangeiros de private Equity ou IPOs.

Essas medidas não surtem efeito a curto prazo, se conferir no último gráfico que coloquei no artigo veja que essas mudanças executadas na economia alemã demoraram um tempo para começar a fazer seu efeito. Mas precisa-se começar a mexer agora para ver os resultados futuros, o que estamos percebendo que o governo italiano parece não demonstrar nenhuma vontade em mudar esse quadro.

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Zona do Euro e a Alemanha

Esses dias retwittei um estudo bem interessante sobre a zona do euro. Onde mostra os países da Europa e quem é o seu principal importador. Na imagem fica claro duas coisas, a primeira é que a Alemanha praticamente domina o comercio dentro da Europa. Abaixo vamos listar uma imagem que mostra o principal importador de cada país. Para ilustrar, por exemplo: a Inglaterra ela importa mais da Alemanha que por sua vez importa mais da China.

Mapa com o principal importador de cada país
Mapa com o principal importador de cada país

A outra constatação é que a Alemanha conseguiu dominar a Europa sem dar um tiro, já falei sobre isso lá no nosso podcast. No twitter, o pessoal dos comentários, até colocaram uma imagem cômica:

zona do euroOutro ponto na discursão do twitter, é que muitas pessoas estavam questionando que a União Europeia e o Euro estavam beneficiando apenas os alemães. Isso me deixou encafifado, pois fiquei me perguntando: Será que é isso mesmo? Será que o sucesso da economia alemã se deve apenas a zona do Euro? Resolvi buscar essa resposta.

Esses questionamentos não são apenas algo do Twitter, mas tem surgido um movimento dentro do bloco, que vem levantando essas falsas premissas. Esses dias estava lendo que tem alguns partidos no sul da Italia estavam aproveitando desse discurso para ganhar espaço.

Achei esse outro gráfico onde demonstra que boa parte dessa controvérsia é infundada. Se pegarmos o crescimento Italiano e comparamos com o Alemão, veremos que ambos andavam juntos e apenas com a crise de 2008 que eles se distanciaram.

Um gráfico as vezes diz mais do que mil palavras:

PIB dos dois países desde 1991 com uma base de 100 padronizada no gráfico
PIB dos dois países desde 1991 iniciando numa base de 100 padronizada no gráfico

Podemos observar que até 2009 o crescimento da Italia e da Alemanha decorreu de forma idêntica, porém após a eclosão da crise financeira a coisa mudou de figura.

Esses mesmos populistas que citei acima, dizem na Italia que é culpa do governo que está implantando esse regime fiscal da zona do euro, como instrumentos para a suposta hegemonia alemã e isso tem sido o fator responsável pelo mau desempenho da Italia.

Essa postura é visto aqui na Alemanha como “Lateinophobie” um termo para designar essa cisma dos países latinos em achar que a zona (leia-se Alemanha) é o problema de suas economias.

Daí o economista chefe do Berenberg, quem fez esse gráfico, Holger Schmieding destacou dois pontos:

  • A economia alemã não é fundamentalmente mais dinâmica que a italiana. De 1991 até a crise financeira, as taxas de crescimento eram idênticas, embora ambos os países foram confrontados com desafios. A coisa ainda era mais complicada no lado alemão pois além do problema da crise a Alemanha ainda teve que lidar com a reunificação. Durante a recuperação econômica a Italia foi mais afetada que a Alemanha pois a Italia tinha mais produção em massa de coisas simples, o que acabou sendo impactado pela entrada de mercadorias chinesas no bloco.
  • É muito comum vermos com a entrada do Euro que muitos economistas europeus (nota VdD: até ai no Brasil), reproduzirem erroneamente que a moeda afetou a dinâmica de crescimento dos outros países. Italia e Alemanha cresceram rapidamente nos anos anteriores, mesmo após a introdução do Euro. O papel do Euro é superestimado.

Após a crise financeira, o desenvolvimento econômico da Alemanha foi além, e na Italia ficou estagnado e praticamente não vemos evolução considerável até os dias atuais. A principal razão de acordo com o Schmieding são as reformas estruturais, enquanto que a Alemanha em meados da década passada implantou reformas importantes no governo a Italia ficou apenas no entusiasmo dessas mudanças, sem fazer nada efetivamente, qualquer semelhança tupiniquins é mera coincidência.

Outro ponto que ele destacou é a revolução digital, que apesar da Alemanha no inicio ter caminhado a passos lentos nesse sentido, conseguiu reverter. Tanto que temos hoje diversas empresas de TI alemã presentes na cena global, talvez possamos falar sobre isso mais pra frente.

E os maiores clientes?

Para complementar o post vamos ver a mesma imagem porém agora por outra ótica, para quem os países mais exportam:

Para quem os países mais exportam
Para quem os países mais exportam

Esse gráfico é o contrario do primeiro, aqui podemos ver para quem o país mais vende. Por exemplo: a Alemanha vende mais para os Estados Unidos enquanto que a França e Italia vende mais para Alemanha.

Aqui podemos analisar a coisa de outra maneira, se a Alemanha venda bastante para o outros, ela também compra muito deles. Veja que tem vários países que o principal cliente é a Alemanha. É o velho ditado de que muitos só querem o venha a nós e ao vosso reino nada.

Como boa parte dos países da zona tinham sua industria de fabricação ancorada em itens mais simples e com a entrada da China no mercado Europeu, fez com que boa parte dessas fabricas que produziam itens básicos fossem dizimadas.

Em resumo, se querem culpar alguém pelo fraco crescimento da economia, esse alguém deveria de ser a China e não a Alemanha que tem colaborado bastante com o bloco sendo o principal comprador de diversos países.

Bônus Pack

Os franceses deveriam puxar a orelha dos espanhóis, já que esses gostam de comprar dos alemães mas na hora de vender é os franceses que dão aquela moral.

Os Estados Unidos deixaram os chineses tomar a Alemanha como principal cliente. Em contra partida, você entende porque a Angela Merkel fica tomando calada umas alfinetadas do Trump, não dá pra arrumar treta com seu principal cliente.

A relação entre Portugal e Espanha ainda continua bem equilibrada, praticamente irmãos.

Pedi para o Economista Visual fazer uma versão tupiniquim do nosso gráfico, ele colocou os países daqui da America do Sul e pra quem eles mais vendem. As conclusões, se vocês quiserem podem deixar nos comentários rsrsrs… Eu só digo que o Mercosul não tem sido nada benéfico para nós Brasileiros.

Alô EV falta fazer a segunda versão do gráfico mostrando de quem os países mais importam.

O que veremos a seguir

Aproveitando para falar sobre um próximo video do canal. Tem tempo que não falo sobre FII aqui no blog, então vou colocar na pauta os contratos de FII e a suas relações com os tipos de FII.

Apenas para ir entrando na vibe deem uma lida nesse artigo do Informaremos do nosso querido VdC, lá ele aborda a questão do Distrato, bom que você vai se aprofundando acerca dos termos técnicos do setor de imóveis.